O presidente Luiz Inácio Lula da Silva levou às redes sociais a cobrança para que Flávio Bolsonaro abra seus sigilos bancário e telefônico. Segundo o UOL, Lula afirmou que prepararia autorizações para a abertura dos próprios dados e dos familiares, condicionando a iniciativa à adesão do adversário. A cobrança é legítima. A condição, porém, convida a uma pergunta: desde quando dar o exemplo depende da autorização do oponente?
É preciso registrar o que foi efetivamente proposto: Lula incluiu sua família no desafio. Portanto, seria incorreto afirmar que ele exigiu exposição apenas dos Bolsonaro. No debate, Flávio declarou não ter nada a esconder, mas, conforme a CNN Brasil, não aceitou expressamente a abertura dos sigilos naquele momento. Ambos devem ser cobrados pelo que fazem, além do que dizem diante das câmeras.
A questão para o presidente é transformar a promessa em uma iniciativa verificável. Quais documentos seriam apresentados? De quais períodos? A quem seriam disponibilizados? Com qual possibilidade de conferência independente? Sem essas respostas, o eleitor recebe um duelo de declarações quando deveria receber informação.
O PT também poderia ampliar a proposta: defender a divulgação voluntária de informações financeiras pertinentes do Instituto Lula, esclarecer o alcance da oferta em relação a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e incentivar dirigentes e aliados a adotar critérios equivalentes de transparência. Uma instituição, um familiar e um dirigente partidário têm responsabilidades distintas. Isso exige critérios claros, não uma lista de suspeitos por associação.
Essa cobrança não pressupõe irregularidade de qualquer pessoa ou entidade mencionada. Tampouco a preservação de informações privadas constitui, por si só, prova de culpa. O ponto é a coerência de quem escolhe transformar a exposição financeira em argumento de credibilidade política.
Se Lula considera a abertura de informações um serviço ao eleitor, pode começar pela própria iniciativa e convidar seu partido a acompanhá-lo. O valor do gesto não deveria depender da conveniência eleitoral nem da resposta de Flávio.
Cobrar documentos do adversário rende manchete. Apresentar os próprios dá trabalho, exige precisão e permite perguntas incômodas. É justamente nessa passagem do discurso para a documentação que a transparência deixa de ser peça de campanha.
O Brasil não precisa de mais um concurso de indignação nas redes. Precisa de informações que possam ser conferidas. Para quem pretende liderar essa cobrança, o primeiro documento vale mais que a próxima postagem.

