Mesmo antes de lançar mísseis contra uma base americana e do então presidente Donald Trump intermediar um possível cessar-fogo com Israel, o Irã já se movimentava para encontrar uma saída diplomática. Autoridades do país revelaram que a ofensiva contra os EUA foi calculada para preservar a imagem de força, mas sem escalar o conflito para uma guerra aberta.
Na manhã de segunda-feira (23), o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã se reuniu com urgência para planejar uma resposta aos ataques norte-americanos que destruíram três importantes instalações nucleares iranianas durante o fim de semana. A ofensiva dos EUA veio após uma série de ataques israelenses que já haviam causado grande destruição à infraestrutura militar do Irã.
Segundo fontes iranianas envolvidas na estratégia de guerra, o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país, ordenou o contra-ataque, mas com limites: o Irã deveria retaliar, porém evitando baixas americanas e uma escalada incontrolável do conflito.
Alvo estratégico e aviso prévio
A Base Aérea de Al Udeid, no Catar — maior instalação militar dos EUA no Oriente Médio — foi escolhida como alvo. De acordo com integrantes da Guarda Revolucionária, havia indícios de que a base havia coordenado os ataques dos bombardeiros B-2 aos alvos nucleares iranianos. No entanto, o fato de estar localizada em um país aliado ao Irã indicava que os danos poderiam ser controlados.
Horas antes do ataque, o Irã enviou sinais indiretos de que uma ofensiva era iminente. O Catar fechou seu espaço aéreo e alertou os americanos, o que permitiu a evacuação e preparação da base. Dos 14 mísseis disparados, 13 foram interceptados e nenhum militar americano ficou ferido.
Mensagem de força ao público
Em pronunciamento na TV estatal, porta-vozes das Forças Armadas iranianas exaltaram o ataque como uma demonstração de poder e prometeram vingança contra “agressores imperialistas”. Imagens de mísseis em voo foram acompanhadas por músicas patrióticas em uma tentativa de unir a população.
Mas nos bastidores, segundo autoridades iranianas, a esperança era que o ataque controlado e o aviso prévio levassem Trump a conter novas ofensivas e, eventualmente, pressionar Israel a recuar.
O plano pareceu ter êxito momentâneo. Trump reconheceu publicamente que o aviso iraniano evitou mortes e agradeceu: “Eles já colocaram tudo para fora do ‘sistema’ deles, e, com sorte, não haverá mais ódio”. Ele chegou a anunciar um cessar-fogo iminente entre Irã e Israel — ainda que a trégua fosse vista com ceticismo no dia seguinte.
Crise interna e desgaste econômico
Apesar da retórica de resistência, a população iraniana começa a sentir os efeitos do conflito. Milhares foram deslocados de Teerã e outras cidades. Comércios operam com restrições e há relatos de dificuldades econômicas crescentes. “Nosso país não tem capacidade para continuar essa guerra”, afirmou Sadegh Norouzi, líder do Partido de Desenvolvimento Nacional.
Até mesmo membros da Guarda Revolucionária demonstram preocupação com os rumos da guerra. Analistas próximos ao grupo alertam que o foco deveria ser Israel, não os EUA, e pedem cautela diante do risco de um conflito em múltiplas frentes.
Futuro incerto
O que virá a seguir é incerto. Apesar dos danos aos seus complexos nucleares, o Ocidente ainda não sabe se o Irã mantém capacidade de enriquecer urânio ou se poderá recorrer a táticas mais discretas de agressão. Outra possibilidade é o retorno à diplomacia para aliviar sanções econômicas.
O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, tem liderado uma série de viagens pela região em busca de apoio. Em entrevista, admitiu os danos sofridos, mas disse que os EUA não conseguiram atingir seus objetivos centrais: “Não nos privaram de nossas capacidades nem impuseram rendição.”
Com um país abalado economicamente, sanções pesando e a opinião pública dividida, o Irã parece apostar, ao menos por ora, em manter a retórica firme, mas com ações calculadas — evitando o que poderia se tornar uma guerra devastadora contra duas potências militares.

