Os trilhos ferroviários cortam as cidades da região há décadas, sempre no mesmo traçado e recebendo as mesmas composições de carga. Com o crescimento urbano, as cidades acabaram se expandindo ao redor da ferrovia, o que aumentou a convivência direta com os trilhos e, consequentemente, os riscos de acidentes.
Essa proximidade transformou passagens de nível em pontos críticos, onde a pressa e a impaciência do dia a dia muitas vezes falam mais alto do que a prudência. Cada vez mais, motoristas e pedestres ignoram regras básicas de segurança — como o princípio ensinado nas autoescolas: PARE, OLHE E ESCUTE —, o que torna esses cruzamentos verdadeiras armadilhas cotidianas.
Levantamentos recentes confirmam essa preocupação. Em Apucarana, por exemplo, foram 11 acidentes envolvendo trens em 2024, dois a mais que no ano anterior, colocando a cidade entre as cinco do Brasil com maior número de ocorrências, de acordo com a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Já em toda a região que inclui municípios como Arapongas, Jandaia do Sul e Cambira, foram mais de 70 acidentes ferroviários em menos de dois anos, conforme dados levantados pelo Portal Centro Norte.
ACIDENTES RECENTES NA REGIÃO
Um dos casos mais recentemente ocorreu em Jandaia do Sul, no chamado “Trevo do Panela de Pedra”, considerado um dos pontos mais críticos da região. Ali, um caminhão foi atingido transversalmente por uma composição da empresa Rumo, deixando sete pessoas feridas, duas delas em estado grave. O trecho é descrito como traiçoeiro: uma curva seguida de aclive compromete a visibilidade do motorista, mesmo com a presença de sinalização obrigatória. Para tentar reduzir o risco, a empresa responsável pela linha férrea, mantinha um funcionário que posiciona cones para interromper o trânsito sempre que um trem se aproximava. Mas, segundo relatos, mesmo essa medida é desrespeitada. O “guardinha” narrou que já viveu situações em que motoristas quase passaram por cima dele, tamanha a pressa e o desrespeito.
A preocupação aumenta diante da frequência das ocorrências. Só na última semana, três pessoas morreram atropeladas por trens — duas em Apucarana e uma em Arapongas. E, enquanto esta matéria era redigida, mais um acidente foi registrado em Cambira. Neste caso, por sorte, não houve vítimas graves, apenas danos materiais.
IMAGENS COMPROVAM A REALIDADE
As câmeras de monitoramento instaladas em alguns cruzamentos reforçam a mesma realidade: condutores que atravessam com pressa, distraídos ao celular ou simplesmente ignorando os alertas sonoros e visuais. O resultado, muitas vezes, é um choque entre toneladas de ferro em movimento e veículos comuns, com desfechos que poderiam ser evitados.
Embora a responsabilidade humana seja um fator central, os acidentes também revelam falhas estruturais. Inspeções da ANTT identificaram deficiências como falta de iluminação adequada, placas desgastadas, pintura de solo apagada e até vegetação que encobre a visão dos trilhos em pontos estratégicos da linha. Essas condições, somadas à imprudência dos motoristas, elevam ainda mais o risco.
URGÊNCIA DE MELHORIAS E CAMPANHAS DE EDUCATIVAS
Diante desse cenário, moradores e lideranças locais cobram ações urgentes. Entre as medidas apontadas como necessárias estão o reforço da fiscalização nos cruzamentos mais críticos, a manutenção periódica da sinalização, a instalação de barreiras físicas, pontos de rebaixamento ou redutores de velocidade, mas quase não focam na intensificação de campanhas educativas sobre a importância da atenção ao cruzar os trilhos.
Enquanto o trem permanece constante, cruzando a região com regularidade, é o fator humano — marcado pela pressa, desatenção e descuido — que faz a diferença entre uma travessia segura e uma tragédia. A combinação de imprudência e falhas estruturais mantém a região em posição de destaque negativa nas estatísticas ferroviárias do Paraná e do Brasil. A solução, ao que tudo indica, passa tanto pela infraestrutura quanto pela mudança de comportamento de quem cruza diariamente os trilhos.

