Palmyra Longuini Menegazzo, fundadora da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Apucarana, completou 100 anos na última terça-feira (20). A trajetória da centenária é marcada pela luta para garantir educação e atendimento especializado aos dois filhos com deficiência e pela criação de uma instituição que, seis décadas depois, atende cerca de 470 alunos nas áreas de educação, saúde e assistência social.
Mãe de quatro filhos, Palmyra começou a buscar alternativas quando os dois filhos com paralisia cerebral chegaram à idade escolar e não conseguiram vagas nas escolas de Apucarana. A dificuldade levou a família a procurar atendimento especializado em outras cidades, até que uma viagem a São Paulo mudou o rumo dessa história.
Na ocasião, ela levou o filho José Antônio para uma avaliação em uma unidade da Apae na capital paulista. Ao conhecer o trabalho desenvolvido pela instituição, decidiu mobilizar esforços para levar uma estrutura semelhante ao município paranaense.
“Quando ela foi para São Paulo sozinha com o José Antônio, meu irmão, que ela levou para fazer um teste numa Apae lá, foi daí que ela resolveu fundar a Apae aqui em Apucarana, porque ela viu a maravilha que era a Apae de São Paulo”, recordou a filha Maria José Menegazzo de Oliveira, de 76 anos.
De volta a Apucarana, Palmyra reuniu famílias que enfrentavam dificuldades semelhantes. Com o apoio de professores voluntários, o grupo iniciou uma escola especializada que funcionava no porão de uma loja maçônica e atendia oito crianças. A fundação oficial da Apae de Apucarana ocorreu em 28 de março de 1966.
Uma trajetória de dedicação à família e à comunidade
Para Maria José, a mãe sempre foi uma referência de coragem, generosidade e cuidado com o próximo. Segundo ela, Palmyra não se limitava a lutar pelas necessidades dos próprios filhos, mas também procurava ajudar outras pessoas que passavam por dificuldades.
“Ela ajudou tantas pessoas. Eu fico orgulhosa de ser filha dela. Eu e a família toda temos orgulho dela, porque ela foi batalhadora mesmo. Foi incrível”, afirmou.
Maria José também destacou que a mãe nasceu e cresceu na zona rural, mas nunca permitiu que as limitações de sua época impedissem a busca por melhores condições para a família.
“Foi uma mulher batalhadora. Ela fez coisas incríveis. Uma mulher que nasceu e foi criada em um sítio. Ela incluía mesmo e cuidava de todo mundo. Não podia ver alguém sofrendo alguma coisa, porque ela cuidava”, lembrou.
Atualmente, Palmyra vive em uma casa de repouso, onde recebe cuidados em razão das limitações de saúde decorrentes da idade avançada.
A neta Fernanda Beatriz Menegazzo de Oliveira, de 46 anos, também ressaltou a determinação da avó em garantir o direito dos filhos à educação, apesar das barreiras enfrentadas pelas pessoas com deficiência naquele período.
Segundo Fernanda, a avó não aceitou a exclusão dos filhos e decidiu buscar uma solução que acabou beneficiando muitas outras famílias.
“Filho nenhum da dona Palmyra ia ficar sem estudo, sem atenção que precisava”, destacou.
Para a neta, o alcance da iniciativa pode ser percebido no número de pessoas atendidas pela instituição ao longo de seis décadas. Ela também recordou o papel da avó na vida familiar, descrevendo a casa de Palmyra como um espaço de acolhimento e convivência.
Fernanda afirmou que o cuidado com os outros sempre foi uma característica marcante da centenária, que ajudou filhos, irmãos, cunhadas, sobrinhos e outros familiares. Para ela, Palmyra permanece como exemplo para as gerações que vieram depois.
Instituição cresceu apesar das dificuldades
A diretora da Apae de Apucarana, Izabel Ortega, explicou que a instituição começou em um período de poucos recursos e de escasso conhecimento sobre as necessidades das pessoas com deficiência. Na época, segundo ela, praticamente não havia políticas de inclusão, metodologias específicas de ensino ou estrutura adequada para esse atendimento.
Além da falta de recursos, as famílias precisavam enfrentar o preconceito, que dificultava ainda mais o acesso à educação e aos serviços especializados.
“Antigamente, o preconceito era muito forte. Ainda existe o preconceito, mas antigamente era muito forte. E ela lutou com todas essas barreiras para chegar aonde chegou”, afirmou Izabel.
A diretora ressaltou que a existência da Apae no município está diretamente ligada à iniciativa de Palmyra e à coragem de reunir a comunidade em defesa das pessoas com deficiência.
“A instituição em Apucarana existe pela dona Palmyra, pela coragem que ela teve de levantar dentro de uma comunidade, sozinha praticamente, para ir em defesa da pessoa com deficiência, que eram os seus dois filhos”, destacou.
Apae atende cerca de 470 alunos
Em 2026, a Apae de Apucarana completa 60 anos de fundação. Ao longo desse período, a instituição ampliou sua estrutura e passou a oferecer atendimento nas áreas de educação especializada, saúde e assistência social. A sede própria foi conquistada em 2007.
Atualmente, cerca de 470 alunos são atendidos pela entidade, conforme informações da direção.
Para Izabel Ortega, a estrutura existente hoje representa o resultado de um trabalho construído gradualmente, a partir da mobilização iniciada por Palmyra e pelas famílias que buscavam atendimento para seus filhos.
“Hoje nós trabalhamos com leis, trabalhamos com verbas, enfim, temos uma escola estruturada. Mas, para chegarmos até aqui, o legado que ela deixou, a pedra que ela deixou como fundamental, ainda está em vigor, ainda está muito viva”, afirmou.
O presidente da Apae de Apucarana, Cleverson Moliani, também homenageou a fundadora pela passagem de seu centenário. Ele destacou que a iniciativa de Palmyra ultrapassou as necessidades de sua própria família e contribuiu para transformar o atendimento às pessoas com deficiência no município.
“Celebrar os 100 anos da dona Palmyra é celebrar uma história de vida, de amor, de generosidade e, acima de tudo, de compromisso com o próximo”, declarou.
Moliani acrescentou que a visão e a solidariedade da fundadora ajudaram a construir uma instituição que continua acolhendo famílias, promovendo inclusão e ampliando as oportunidades para pessoas com deficiência em Apucarana.

